Eu, eu mesmo e Ann Arbor

Esse blog serve para contar algumas das minhas experiências em Ann Arbor, cidade para a qual eu me mudei em Agosto de 2013 para fazer meu doutorado em Ciência Política. Escolhi esse título para o blog por causa do filme de comédia “Eu, eu mesmo e Irene”, estrelado por Jim Carrey (se não viu, veja). Explico.

No filme, Charlie, personagem interpretado por Jim Carrey, tem dentro dele duas personalidades (ou se você quiser, Transtorno Dissociativo de Identidade). Assim, dependendo da situação, dependendo da personalidade que está “ativa” no momento, o personagem experimenta as coisas de formas diferentes. Por isso o “Eu”, e o “eu mesmo” do título. As duas personalidades se apaixonam pela mesma mulher, “Irene”, e brigam entre si para tomar conta do corpo de Jim Carrey.

Vamos para a analogia. Se você está lendo esse blog, provavelmente já sabe disso, mas em todo caso é bom esclarecer que minha esposa chama-se Irene. Eu, eu mesmo, sou apaixonado por ela, por isso me casei (sou desse tipo estranho que só se casaria por esse motivo). Vivíamos tranquilamente na nossa casinha, aproveitando as coisas boas que uma cidade de médio porte no interior do estado de São Paulo pode oferecer, perto da família e dos amigos, dos amigos e da família. Para um canceriano, essas duas coisas se confundem: família e amigos de verdade estão todos na classe das pessoas muito queridas das quais ele quer estar sempre perto. Mas, continuemos com a explicação do título do blog.

Ao acabar meu Mestrado em uma das melhores Universidades do país na minha área decidi ousar um pouquinho e tentar uma candidatura nas melhores Universidades do mundo na minha área, nos Estados Unidos. Pois ocorreu que fui aceito em duas delas, e me decidi por uma que fica na cidade de Ann Arbor. Como em um primeiro momento minha esposa não poderá vir, terei que enfrentar a barra de passar alguns meses sozinho por aqui. Daí Ann Arbor no lugar de Irene no título.

Além disso, e porque sabia que ficaria longe de pessoas muito queridas e da minha esposa, ao menos no começo, a personalidade começou a ficar dividida. De um lado, EU estava muito feliz porque tinha nas mãos uma oportunidade incrível de estudar em uma das top 5 Universidades do mundo na minha área, ter uma experiência de vida valiosíssima, etc., etc., etc. Mas por outro lado, EU MESMO ficava triste e ansioso por tamanha mudança, para longe de pessoas queridas, do conforto e segurança das coisas que me são familiares e, além de tudo, da minha esposa. EU, EU MESMO, pensei, penderei os prós e contras, ficava uma hora feliz outra nem tanto, analisei tudo novamente e de novo, conclui que não valia a pena vir, entendi que o custo era muito alto, decidi finalmente que não viria e vim. Agora estou aqui, em Ann Abor, escrevendo esse primeiro post.

Além desse sentimento ambíguo que se manifestava entes de vir, tenho certeza que aqui irei experimentar coisas muito empolgantes, conhecer coisas que vão me encher de entusiamos e que irei encontrar um ambiente adequado para o treinamento acadêmico  que procurava. Mas ao mesmo tempo irei experimentar em alguns momentos o “homesick” como chamam aqui, que é o sentimento de tristeza e melancolia por estar longe de casa. Sei que isso vai acontecer, em especial nas épocas de muito trabalho, pressão e conforme o tempo e a saudade forem apertando. Por experiência pregressa, sei que terei sentimentos diferentes dependendo do momento, como já estava tendo mesmo antes de vir, Essas duas personalidades, que são na verdade EUEU MESMO, vão se manifestar hora e outra. EU, EU MESMO, irei, como o personagem do filme, experimentar a mesma situação de maneiras diferentes, como se fossem duas pessoas, uma feliz e empolgada, outra as vezes nem tanto. Acho que isso explica tudo sobre o nome do blog. Faltam os motivos.

Os motivos para o blog são dois. Um é terapêutico e egocêntrico. Falar o que vai ocorrendo aqui e compartilhar isso pode ajudar nos momentos bons e nos difíceis. O segundo é melhor: ir dando notícias e compartilhando as coisas que experimento aqui, para trazer o máximo possível aqueles que ficaram lá para mais perto e, quem sabe, ir convencendo essa gente querida de me visitar logo. Até lá, que EU escreva muito mais do que EU MESMO.

By diogoferrari